CAINDO NA REAL

Às vezes precisamos parar o turbilhão de coisas que estamos fazendo e mergulhar em nós mesmos para lembrarmos quem somos.

Tenho sentido uma necessidade imensa de ficar completamente sozinha, em silêncio e principalmente sem contato com outras pessoas. Aquela pequena vontade de jogar o celular longe e de desligar a wi-fi por uns dias, sabe? Acho que é o resultado desses já sete meses vividos sendo tudo virtual e online. A gente recebe todos os dias uma quantidade sem fim de conteúdos por aqui. 

 

Mas bem, ocorre que precisava ver os dez vídeos do programa “caindo na real” e o mergulho que fiz foi para dentro. Me explico: os vídeos nos trazem um turbilhão de informações e cada um de um jeito único e específico.

Cada vídeo aqui apresentado me fez lembrar e pensar nas minhas memórias, nas minhas histórias e no meu passado. No que já vivi e senti. Me vi neles e fui mergulhando para dentro de mim. Fiquei pensando nesse diálogo entre o mundo de dentro e o mundo de fora, essa conversa que permanece. O mundo que nos invade a todo instante. 

 

O que quero dizer com tudo isso (e espero que tenha conseguindo minimamente) é que os dez vídeos desta semana, para mim, são um convite para que cada um desperte suas memórias pessoais e crie a sua própria narrativa para eles. São tempos difíceis e mais do que nunca precisamos nos permitir nos ver e nos entender nesse mar de informações diárias que vivemos. Só assim não esqueceremos quem somos.

 


Fernanda Medeiros* 

Arthur Palhano - Loop, 2020
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"Com o intuito de criar um grande compilado de gifs e imagens da internet, desenvolvi na WebResidência do espaço Olhão o trabalho “Loop”, que exprime alguns sintomas de uma geração z ressentida e emotiva, que assume uma afetividade poética com a estética “emo”, “gótica suave”, “trash” e “Insone”. Traçando paralelos ao isolamento, uma constante que fomenta melancolia, ansiedade e o desejo, existentes pela falta de contato social. Gerando um tempo que se repete ao infinito através dos gifs e suas narrativas."
João Rocha - Reprodução Automática, 2020
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Cadu Peixoto - Nobody Cares, 2019
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Plataformas de exibição de vídeos online utilizam um mecanismo denominado "reprodução automática" para indicar aos usuários mais conteúdo ao término do que estavam assistindo até então. Essa sugestão é calculada por um algoritmo a partir do histórico de visualizações atribuído a um determinado indivíduo. Uma vez que esses dados não estejam disponíveis, esse mesmo mecanismo pode levar a resultados inesperados e imprevisíveis que permitem uma deriva digital.
Cadu Peixoto - You're not so special, 2020
"Não há muito o que falar. Neste trabalho, eu estava tentando alcançar uma abordagem mais direta entre a mensagem e o meio. Assim como a proposta dos minimalistas (What you see is what you see), o vídeo, está tentando dizer o que ele está dizendo, o mais direto possível. Desesperadamente e freneticamente. Nos dias de hoje, com as mídias sociais existe uma certa ansiedade para se ser notado, e Deus sabe como isso pode ser frustrante, este vídeo surgiu para causar uma reação (qualquer uma). Repetido como um mantra, você pode pensar e avaliar se é uma coisa boa ou ruim (ou ambas) essa condição."
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Alexandre Nitzsche - kiddo tearz, 2018
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"Seguindo a mesma abordagem usada em Nobody Cares, tentei animar uma pequena pintura que fiz alguns anos atrás, com outra única frase repetida como um mantra. Gosto desses tipos de frases, porque elas refletem como me sinto sobre a relação com os outros e com o mundo. Às vezes fico frustrado e com raiva, mas às vezes percebo que é assim que as coisas funcionam e me deixa mais livre, com liberdade de fazer o que quero. Mas é um movimento circular."
Juba e Charlie - Saturação Semântica, 2017
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O curta desenvolve sua narrativa pelos olhos da ludicidade, pautando-se na força do realismo fantástico, com uma temática que abraça a inocência, e a dualidade característica da período da infância. Ele tem como objetivo exaltar o questionamento quanto a ausência de figuras LGBTQ+ na cultura do skate, que desde seus primórdios, se mostra um ambiente hostil à feminilidade, e majoritariamente machista.
Cinema Fora de Cena - CAO$MINHADA, 2019
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"Nós, do Cinema Fora de Cena, nos articulamos como um coletivo que busca novas formas de produção, distribuição e consumo do audiovisual. Através de processos lo-fi e colaborativos, diálogos entre linguagens artísticas distintas e uma pluralidade geográfica (com participantes de 4 estados diferentes do Brasil), buscamos caminhos novos no fazer e pensar do cinema. Os trabalhos abraçam uma produção e fazer orgânico ao mesmo tempo em que são norteados por certas práticas recorrentes e fortes referenciais do cinema experimental."
Mariana Destro - I Feel Fantastic, 2020
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Gabriel Fampa - Pedra Amarela, 2020
'I Feel Fantastic é um trabalho em vídeo de 6:18 minutos de duração. Colagem de referências que têm me atravessado nos últimos meses, o vídeo começa com a descrição clínica da Síndrome de Burnout. Em seguida, surge minha voz, em off: "Você sente burnout quando esgota todos os seus recursos internos, mas não consegue se libertar da compulsão nervosa de continuar", enquanto se vê uma fotografia aérea do rolo da câmera do meu celular. Na medida em que introduzo os sintomas da Síndrome de Burnout, ouve-se o áudio original de "I Feel Fantastic", vídeo que viralizou na internet infame devido à esquisitice do androide que protagoniza o vídeo. Estamos falhando. Um breve momento de meditação e, novamente, burnout. A voz do androide cresce enquanto vemos a cena final de Mouchette, de Robert Bresson (1967), em que a protagonista, Mouchette, se mata rolando ladeira abaixo, em direção à água.'
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"No vídeo evidencia-se a investigação do artista pelo antagonismo da dualidade natural/artificial que, bem como os termos território e paisagem se tornam imprecisos e difíceis de definir no entorno contemporâneo. O artista identifica que é raro encontrar espaços que não tenham sido transformados pelo homem: são leituras paralelas de uma mesma realidade. A ideia surge a partir da inserção de um objeto criado pelo artista, em que foram feitos experimentos de inserção deste objeto em uma paisagem natural. Na busca de criar possíveis reflexões e relações de contato entre o objeto artificial (criado pelo homem) e seu impacto na paisagem. Na criação de seus objetos o artista busca uma fusão de materialidades. A fim de não ser possível mais a identificação das suas partes constituintes, a partir do momento que perdem sua individualidade e o objeto ganha uma nova forma que reafirma sua heterogeneidade. O trabalho do artista ainda possui um caráter processual a partir do momento que parte de um nomadismo artístico de coleta. Reorganiza fragmentos coletados na criação de novos corpos (objetos tridimensionais). Ainda assim é do interesse do artista que carreguem seus vestígios de “ruína”, fragmento e abandono preservando aspectos precedentes. Seria uma imitação de um objeto material existente na natureza, capaz quando muito de enganar os sentidos, ou seriam eles indistinguíveis?
Ficha técnica: plástico, caliça, poliuretano, tinta acrílica
50x30x25cm (2019).
Vídeo realizado na praia da Guarita (Torres-RS) em fev/2020. Duração: 2:46s. Sugere-se uma
apresentação em AVI."

*Fernanda Medeiros vive e trabalha em Porto Alegre. É curadora, pesquisadora, editora e historiadora da arte. Atual curadora-assistente, coordenadora de operação e coordenadora dos Núcleos de Curadoria e Comunicação do Museu de Arte do Rio Grande do Sul – MARGS. Especialista em curadoria pela Pós-Graduação Lato Sensu em Práticas Curatoriais do Instituto de Artes (IA) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), bacharel em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e graduanda do Bacharelado em História da Arte, também pelo IA-UFRGS. É idealizadora e editora da Cactus Edições, selo de publicações de artistas. Atuou como produtora na Bronze Residência, é uma das produtoras e idealizadoras do festival de videoarte “C4NN3S” e da Feira Folhagem de publicações. Foi coordenadora do Centro de Documentação e Pesquisa da Fundação Vera Chaves Barcellos (2012-2019) e sócia-fundadora, curadora e produtora no Acervo Independente (2014-2017).