MUNDO PRÉ-LIVE

    Performance é reconhecimento, comentou Paul Zumthor, numa tradução poética das palavras de Dell Hymes em Breakthrough into performance. A performance aparece num momento ao mesmo tempo cultural e situacional: ela aparece como uma emergência. Para Hymes, podemos pensar em 3 tipos de atividades de um ser humano: coletiva, do grupo cultural, ou seja, behavior, comportamento; tudo que é produzido por uma ação qualquer. A outra, a conduta, um comportamento relativo às normas socioculturais, sejam elas aceitas ou rejeitadas; e por fim, performance, que é uma conduta na qual o sujeito assume aberta e funcionalmente a responsabilidade de sua ação.

   Se performance é reconhecer-se, há também algo de coletivo, que reverbera nessa emergência, na voz, na denúncia, na reivindicação por direitos, nos corpos. Nossos corpos são nosso manifesto, disse Carla Gomes.  Como imagem espelho e corpo reflexo de cada lugar de existência através do diálogo e escuta ativa. Vozes pintam as marés e ecoam com as ondas. Pega fogo cabaré. porque o corpo é pólvora, faísca, é corpo-bomba, mas também corpo-sutil. O corpo também como estúdio de si mesmo, arcabouço de linguagens, tecnologias e saberes contra-coloniais. 

  Registros de performance assim como ações  realizadas para a câmera são algumas das elásticas potências do performativo. Talvez potências de um mundo pré- live? Mas o que seria esse mundo pré-live? O mundo das coisas antes ditas, antes da vida pandêmica bidimensional das lives mas também durante: agora. Ações registradas para que não se percam no tempo desastroso da história contada somente por homens brancos europeus, para que fiquem, como um arquivo vivo, que se atualiza a cada visualização. Atualizando o instante presente de cada documentação dessas performances. 

    É preciso registrar antes que tudo acabe. Para que não desapareçam depois do fim. Para que vire respirar-ação e não sufoco, para que não fique entre muros, para que a tinta vermelha  seja de resistência e reparação. Que essas ações realizadas presencialmente, pré-live, como registros vivos nos levem a essa viagem no tempo e que possamos com a performatividade desses registros e vestígios dessas performances estar lá. Ou estar aqui para lembrar que estamos vives. Nós já combinamos de não morrer.

   Hoje muito mais do que ser arquivado, o documento de uma performance faz também parte de um repertório de práticas incorporadas como um importante sistema de conhecer e transmitir conhecimento, como afirma Diana Taylor,  imagens, ações, esquemas, instruções, registros de vídeos, oralidades que podem ser acessadas e re-performadas ou re-incorporadas. Chamo de um documento performati-vivo, ou seja, que se re-performa  em si mesmo a cada repetição sendo ação. Os registros de uma ação em vídeo tornam  também o reconhecimento ativo de novo.

  Além dos vídeos enviados pela equipe Festivau de C4nn35 convido as artistas Dani Amorim, Daniele Barbosa, Maire Monteiro e  Virginia de Lauro para compor o programa. Que tenham todes uma linda experiência.

Andressa Cantergiani* - Primavera de 2020

*andressa cantergiani

 

Vive entre Berlin e Porto Alegre, é doutoranda em Poéticas Visuais pelo PPGAV-UFRGS, mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP. Graduada em Artes Cênicas pelo DAD/UFRGS. Estudou Performance na UDK- Universidade das Artes em Berlin. Doutorado Sanduíche University of Applied Sciences and Arts- Hoschulle Hanôver - Alemanha. Artista representada da Galeria Mamute, Porto Alegre-Brasil. Gestora da BRONZE Residência e galeria Península em Porto Alegre. Curadora e educadora do PPPP [Programa Público de Performance Península] premiado duas vezes pelo editais #Juntospelacultura FAC ProculturaRS, pelo FUMPROARTE, Atelier Livre Poa e Prêmio Açorianos como melhor Projeto de Divulgação e Inovação Cultural. Premio FUNARTE MINC Brasil Cultura-Lisboa e CDEA- Centro de Cultura Européia e Alemã. Realizou residências, projetos e exposições em diversos espaços em redor do mundo tais como Fundação Iberê Camargo/RS/BR, Brasil, MAC/RS- Museu de Arte Contemporânea, Museu de Arte Contemporânea Bispo do Rosário/RJ/BR, Residência Terra Una/MG. Residência Insurgências, Berlin/ALE. Possui obras em coleções particulares e acervos do MARGS-RS, MAC-RS e AMARP-RS.