É preciso devorar nossos duplos!

    Nas últimas décadas, com a massificação do uso das redes sociais e com os avanços dos dispositivos de midiatização, acompanhamos o surgimento de um fenômeno sócio-cultural que podemos chamar de espetacularização da vida comum – de acordo com as famosas análises de Guy Debord, a palavra “espetáculo” nomeia um tipo de relação interpessoal mediada por imagens, na qual a aparência importa mais do que tudo. Hoje, as vivências cotidianas se transformam quase que instantaneamente em narrativas pessoais que são expostas e acessadas nos mais diversos espaços virtuais. É como se estivéssemos habitando um meio social transfigurado em um reality show expandido onde todos somos ao mesmo tempo personagens e espectadores. Com isso, além da atenção aos nossos corpos e performatividades "carnais", constantemente trabalhamos no cuidado de uma outra versão do Eu, que é idealizada, virtual, composta por dados e informações digitais. Somos estimulados a produzir um corpo-imagem que funciona como uma prótese, um duplo espectral que pode circular em outras dimensões da realidade, em regime 24/7, amplificando e assegurando sentidos para nossa existência na "vida real". A possibilidade de registrar e divulgar nossas ações a qualquer momento e em qualquer lugar faz com que a relação entre performatividade, documentação e arte se mostre mais complexa do que parecia no século XX. Pensarmos sobre essa construção de outras versões do EU, bem como sobre suas relações com a realidade e seus possíveis significados estéticos e políticos, se torna fundamental quando nos aproximados da produção audiovisual de artistas que usam o corpo e suas experiências como matéria. Se hoje somos quase que obrigados a narrar nossas vidas, se nossas subjetividades são cada vez mais moldadas pela lógica do espetáculo, se somos assombrados por tantos modelos de comportamento, como trabalhar com imagens e desenvolver um processo artístico autorreferente que seja uma verdadeira experiência transformadora de vida e não apenas uma reprodução da norma? Os vídeos da mostra “meu querido c4nn3$” são extremamente interessantes, pois revelam inquietantes reflexões acerca dessas questões. O filósofo Serge Margel usou o termo “filme antropofágico” para descrever a obra do cineasta Jean Rouch. O autor fala de uma antropofagia espectral, onde duplos devoram duplos, imagens devoram imagens. Margel e Rouch descrevem um tipo de prática cinematográfica que se aproxima de rituais de possessão, um “cine-transe” onde a câmera se transforma em uma prótese que amplia as capacidades do corpo experimentar a realidade, onde o gesto de filmar se confunde com a vivência de uma maneira tão intensa que pode ser comparada a uma incorporação por espíritos. Nas incorporações, os sujeitos sofrem transformações, se tornam outros, devoram espectros para absorver suas qualidades. Ao ver os vídeos selecionados para a mostra “meu querido c4nn3$” essa ideia de possessão e “espectrofagia” através da produção de imagens surgiu em minha mente. Cada vídeo cria um ritual diferente e singular, onde sua autora ou autor parece enfrentar certas assombrações de sua vida pessoal, mas também de nossa vida social, armados por suas câmeras e dispositivos de edição como se realizassem uma feitiçaria, transitando por outras dimensões da realidade para poder ver, mostrar, devorar, digerir e transformar tais fantasmas. Esse gesto é poético e político, é uma forma de enfrentamento das injunções do espetáculo que tendem ao empobrecimento das experiências. Mas um enfrentamento que não nega o uso da imagem, ao contrário, saboreia suas múltiplas possibilidades, indo muito além das visibilidades e das aparências. Os vídeos-transe devoradores de duplos de “meu querido c4nn3$” não são construções narcísicas de um “Eu ideal” para ser exibido ao público ou um simples “querido diário” aberto aos olhos de todos como um reality show. São exemplos de formas de uso tático dos dispositivos tecnológicos – que já sabemos que foram criados pelas grandes corporações como parte de uma estratégia de controle biopolítico –, ressignificando-os como ferramentas potencializadoras de experiência de vida e de transformação de si, do outro e do mundo.

Eduarto Montelli*

“"nunca olvidar”esta composta por muitas emoções e vários sentimentos...as palavras não são suficientes para explicar elas,mas a junção do visual com a palavra...muda tudo...filme feito com recompilações de vários áudios de conversas aleatórias tentando explicar o fazer artistico,e ao mesmo tempo faz uma chamada para os artistas a nunca parar de criar e sempre lembrar a importância de transformar em materia,pequenos fragmentos da alma..."
As saídas para o fim do mundo não são individuais. Nosso peito explode como o povo que em uma das mãos sustenta a festa e na outra uma bomba de tempo. Uma parte de nós quer apodrecer nesse texto, outra parte quer que o cadáver de nossas tardes venha feder em tuas manhãs felizes. O eu que fala por todos. Todos desatam os nós. Denunciando, através da nossa garganta, o trabalho que nos engole. Cuspindo pra fora o dia a dia que atravessa o nosso corpo latino. O vídeo é baseado no roteiro da cena Fast Food Antropofágico, apresentada em dezembro de 2019 na cadeira de Atuação IV do Departamento de Arte Dramática da UFRGS pelo Coletivo de Teatro Faísca. O roteiro contém fragmentos do Poema Sujo de Ferreira Gullar com textos autorais.
na boca tudo é
oca: de fome, defronte
do insaciável desejo da língua
lânguida e farta
da boca do mundo nada escapa
dentes, gengiva, garganta e papilas
destroçam o bolo alimentar
você se alimenta de que ?
roendo livros como traças
se empapuçando de manjar
lambendo a tela de um celular
escorre o cheiro de café pela manhã
junto com o matinal anúncio de morte
não vai sobrar corpo no chão
na boca oca do mundo tudo virá
tesouro, corpo, cérebro
nessa terra de tudo dá
e muito se tira
mas atenção atenção
à essa terra tudo retornará
triturado nos dentes da grande boca do mundo
bolo alimentar de corpo, tesouro, cérebro
a morte e a fome
a vida e o pesar
a máscara e o vírus
a arte e o pensar
no grande cu do mundo
tudo, tudo vai virar bosta
engatilhadOh. tesões vagos que se transformam na madrugada distópica, suspiros quentes dissipados num isolamento frágil e áspero. tesão que não se pode tocar. o caminho do próprio toque imaginando outros múltiplos corpos naquele saudoso aglomeramento, bixaria de carnaval, a pele quente ansiando outra pele quente. uma bixa sozinha é uma bixa sozinha; uma bixa com tesão e
sozinha, é uma bixa triste. tudo começa no toque -
meu toque só
me toca.
meu corpo só
me dói.
tesões que não toco, não sinto cheiro,
o suor do gozo de outra corpa.
a bixa escreve, se toca, se provoca, goza e escreve e se toca e goza.
IsoladaMente é uma construção experimental sobre criatividade e produção em isolamento. O curta foi construído com elementos contidos em casa e representa a rotina de uma mente cansada. Temos alusões surrealistas de tarefas simples do cotidiano, tais como, regar as plantas, fazer comida, sentar-se ao PC para trabalhar em Home Office e principalmente a solidão do isolamento para uma mente criativa.
"Penso na pintura como espaço simbólico de experimentação de potências que, na vida cotidiana, sofrem uma negação tremenda por parte das ferramentas de poder micro e macropolíticas. Vivo esse pensamento muito intensamente, na minha mente e no meu corpo. Preciso colocar meu corpo em relação com a obra. Preciso da materialidade da obra e do engajamento físico de todos os sentidos, do mais denso ao mais fino. Alguns conceitos chave na minha prática em pintura são o demorar-se e o atravessamento. O primeiro diz respeito a permitir-se o tempo necessário para que cada elemento decante no espaço da tela e manifeste plenamente sua potência. O segundo trata da dança de equilíbrio que essas potências manifestas engajam ao afetarem-se umas às outras."
Produzido de forma independente, o vídeo foi realizado após uma série de reflexões sobre o sufoco, envolvendo uma pesquisa anônima online com 17 participantes. Vídeo desenvolvido durante isolamento social na cidade de novo hamburgo, rio grande do sul. junho de 2020. Trilha sonora, captação de imagens e atuação: haydée

*A prática de Eduardo Montelli (Porto Alegre/RS, 1989) transita entre performance, vídeo, fotografia e arquivamento. Seus trabalhos expõem diversas inquietações acerca da influência de documentações, narrativas e outras formas de “inscrição de si” no modo como vivemos. Participa de atividades artísticas desde 2009 e em 2019 apresentou a exposição individual "Como faremos para desaparecer", com curadoria de Charlene Cabral, na galeria da Fundação ECARTA, em Porto Alegre. Montelli é Mestre em Artes Visuais pelo PPGAV/UFRGS e, atualmente, faz doutorado no PPGAV/EBA/UFRJ.

Site: cargocollective.com/eduardomontelli